Reflexos do Homem Máquina

Há muito tempo homem máquina está fora de moda, aquele trabalhador que era apenas um componente mecânico dentro de uma estrutura hierárquica e que repetia dia-a-dia os mesmos movimentos cronometrados na linha de montagem de Henry Ford. Não podia sentir, não podia interagir, não podia criar, não podia sorrir. Um morto - vivo, que dava a própria vida por um salário de fome, escravo da própria ignorância e do poder do mais forte.

No entanto, transcorridos mais de cem anos e apesar de toda tecnologia disponível, sentimo-nos hoje ainda mais escravos. Se antes a dor era fome, hoje, a dor é desejo, se antes era solidão, hoje, é indiferença, se não tínhamos reconhecimento, hoje, não temos identidade.

A velocidade, a compulsão do ter, de possuir símbolos, marcas e grifes aponta no mais profundo de nosso ser para o desamparo, para a ausência de sentido e nos perguntamos: Para que tudo isso, se mesmo quando consigo o que quero algo continua faltando? Por que precisamos cada vez mais da aprovação alheia, seguindo modelos de vida e valores sem qualquer conexão com a simplicidade que nos faria felizes? Por que troco o que sou e tenho de mais precioso pela ilusória moeda chamada sucesso? Por que me curvo em devoção inconsciente a perigosa rainha chamada vaidade?

Como dizia uma velha história indígena; Avançamos muito e com tal velocidade, que nossos espíritos não conseguiram alcançar nossos corpos e agora estamos exaustos e desorientados...

Vivemos na era da superficialidade, da busca pela satisfação instantânea, do sexo virtual, dos seqüestros relâmpagos e dos casamentos idem, da violência inusitada, da morte genérica. Não temos tempo, não vemos a lua, não sentimos o ar, não amamos, não vivemos. Temos, porém uma grande e vazia esperança - o amanhã e a ilusão de que este será mágico, trazendo a cura de todos os nossos males e a realização de nossos sonhos, mesmo quando nada fazemos por merecê-lo e, principalmente, quando ainda não existe um claro acordo entre nós e a vida buscamos. Ignoramos a necessidade fundamental para realização de todo nosso potencial, um propósito sublime que guie nossa existência. Sonhamos demais, mas o grande problema com os sonhos e que é precisamos estar dormindo para que eles aconteçam.

Na verdade a vida precisa de você desperto, consciente, responsável, imbuído de uma missão maior, mais forte e digna do que a busca egoísta de desejos pessoais. De alguma forma o universo lhe pede que brilhe não para si mesmo, mas para ser luz e força para os que caminham junto de ti.

É verdade que não podemos dar o que não temos, mas também é fato que hoje, agora, neste exato momento, você está vivo e pode se desejar, ser vida e força para outros, basta apenas esquecer algumas vezes por dia, as próprias dores e limitações para então, afastar as pedras que obstruem o caminho do teu próximo, impedindo-lhe a felicidade.

Saiba que cada movimento em favor do bem transforma teus sentimos e abre as portas da tua felicidade. Porém, ao mesmo tempo e no sentido contrário está a ansiedade, nome moderno para o medo, que é uma grande aliada dos processos de massificação alienante, onde tudo é pensado por nós, onde a cultura moderna cria a doença para vender o remédio. Assim, quanto mais ansioso (a) você for, menos poderá perceber a riqueza ao alcance das tuas mãos.

Portanto, se é dia dos namorados e não temos um (a), ai meu Deus, que pobre criatura nos sentimos, se existe uma nova técnica para melhorar o corpo e não temos dinheiro ou tempo para fazê-la, lá vem aquele velho sentimento de frustração.

Esta é a cultura do mais, do melhor, do mais rápido e da sedução, a indústria do vazio que cria apenas fraqueza moral, mas que lhe dá o antídoto, “compre e seja feliz”. De apenas uma folheada nas revistas de maior circulação e verá que você “deve” ser mais sedutor (a), pois sedução é poder! Mas ninguém lhe diz o verdadeiro significado da palavra sedução que segundo o dicionário Aurélio é: desonrar com promessas!

É isto que vemos a cada instante, promessas vazias que nunca poderão trazer satisfação, plenitude e paz. Não existe nada além, nada fora de nós mesmos que possa ser fonte da verdadeira alegria, a alegria de estar vivo, da aceitação de nós mesmos, como somos, sem retoques, nem implantes, sem tirar, nem por.

Não se deixe enganar, antes de mais nada, olhe para dentro de si mesmo e verá, claro como um lindo dia de sol, a razão da maior alegria; ser quem você é! E para que sua felicidade seja completa, estenda sua mão e abra seu coração para todos os que precisam de ti, no trabalho, na fila do banco, no supermercado, mas principalmente para os que trilham os caminhos da vida bem próximos e que muitas vezes são os primeiros à serem esquecidos. Não deixe que as engrenagens do mundo te façam máquina insensível e inconsciente, repetindo sempre os mesmos pensamentos e atitudes, tornando-se cada vez mais, uma peça na indústria da dor. Aprenda a suportar, acolher, ouvir e não de conselhos, mas viva e seja testemunha do bem que vive em ti. Que teus dias sejam contados em segundos, sendo cada um deles pequeninas gotas de paz, esperança e amor, regando com luz todos os passos de sua existência!

Marcelo Prates

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