O sistema Aéreo Nacional, um problema de credibilidade.
As conseqüências para a competitividade nacional no
trágico e evitável acidente da Gol, foram objeto de
nossa observação em artigo anterior. Naquela oportunidade
já prevíamos os impactos que agora se apresentam,
como coração do problema; A ineficiência da
gestão pública. Temos porém fatos novos, que
permitem aprofundar a compreensão sobre a crise do Sistema
aéreo Nacional, e suas relações de causa e
efeito, particularmente entre a gestão e a construção
da credibilidade das instituições públicas
e privadas. O apagão aéreo ocorrido em 05/12, vem
a corroborar com nossa tese de que a ineficiência operacional,
evidenciada na segurança aérea brasileira, advém
de processos prioritariamente políticos, em detrimento da
priorização dos aspectos técnicos. Informações
colhidas no site da Agência Nacional de aviação
Civil, Anac (http://www.dac.gov.br/), sobre a pane ocorrida no sistema
aéreo em 05/12, que cortou a comunicação por
rádio paralisando o controle aéreo em Brasília,
dão a dimensão e a gravidade do problema.
Diz o texto no referido site que “a Anac cancelou todos
os vôos nos aeroportos de Confins, em Minas Gerais, Juscelino
Kubitschek em Brasília e Congonhas em São Paulo”.
Então caro leitor, se você pretende viajar de avião
não se aflija, pois continua o texto.... “A previsão
é de que quinta-feira o sistema esteja normalizado nos três
aeroportos”. A previsão anterior era de quarta, mas
como dizia o ex ministro Pedro Malan, “o futuro tem por ofício
ser incerto”.
Veja que a palavra “previsão” é sintomática,
pois significa que quem pagou caro pela agilidade do transporte
aéreo, talvez consiga, num futuro incerto chegar ao seu destino.
Pois lembre-se, estamos no campo das hipóteses: Se você
vai de avião,talvez você consiga aparecer em sua reunião
com clientes, talvez consiga comparecer a audiência no fórum,
ou talvez consiga viajar para dar prosseguimento a um tratamento
médico. Basta acompanhar o noticiário de televisão
para ver a frustração, desânimo, e muitas vezes
o desespero estampado na cara dos passageiros. Mas por outro lado,
não tenha dúvidas quanto ao seu IPVA, IPTU, Imposto
de Renda, eles JAMAIS atrasarão, pois não ocorrerá
qualquer pane nos sistemas que controlam esses impostos.
Desta forma, não vemos outra alternativa que não
a comparação da gestão pública e seus
processos, com os processos geradores de qualidade na iniciativa
privada. Para tal, podemos trabalhar com apenas um parâmetro
de produtividade, como índice de falha zero, ou zero unidades
defeituosas, amplamente utilizados na indústria Japonesa,
que considera excessivo qualquer número superior a 1 peça
com defeito a cada mil unidades produzidas. Considere então
o cancelamento de todos, isso mesmo, todos os vôos controlados
pela capital federal, no chamado “apagão aéreo”
ocorrido em 05/12, nada mais, nada menos do que 100 % das unidades
(vôos) fora do padrão! Atente para o fato de que indústria
aérea está sujeita a métodos de mensuração
de qualidade, como qualquer outra. Assim acabamos de inventar a
qualidade total às avessas, ou seja, criamos o defeito total!
Incluo neste artigo, informações publicadas no jornal
o Estado de São Paulo de 06/12, no qual a própria
Policia Federal e o comando da Aeronáutica suspeita de sabotagem
nos sistemas de controle aéreo feita por sargentos controladores
que reivindicam melhores salários. Como se bastassem questões
de falha humana e ou técnica temos agora, uma possível
ação do partidos dos aproveitadores de plantão,
sempre muito ativo no país.
Também havíamos alertado sobre a percepção
de risco do investidor, e como o mesmo incide negativamente sobre
a carga tributária diminuindo a competitividade nacional.
O que se renova, na evolução do caso, é o indiscutível
fato de que problema central do País, e todas as suas conseqüências
diretas e indiretas são substancialmente questões
de credibilidade. A competitividade e a credibilidade de um país,
ou empresa se refletem e se prova no dia-a-dia do cidadão,
no salário que recebe, no imposto que paga, na qualidade
dos serviços que recebe em troca. Porém salta aos
olhos, que mesmo empresas modernas e competitivas internacionalmente
pouco podem, quando submetidas a processos gerenciais contaminados
por interesses políticos, e portanto,muitas vezes acabam
tendo seu maior patrimônio,a força de sua Marca, diminuído.
Segundo a Consultoria Economática, Gol e TAM já perderam
juntas mais de 5 bilhões de reais em desvalorização
de suas ações. Saliente-se que 70% da riqueza produzida
nas grandes nações, está diretamente relacionada
com o nível de credibilidade que as instituições
e as empresas são capazes de oferecer a população
na prestação de serviços. O cidadão
é em primeira e em última instância um cliente,
e não está disposto a pagar por qualquer falha oriunda
de seu prestador de serviço, não importando se é
um país ou empresa. Credibilidade é garantia de qualidade
superior, de segurança e eficiência e esta lamentável
crise que a tantos vitimou, continua e continuará a lançar
cinzas sobre cada cidadão brasileiro, seja ele consumidor
ou não de bilhetes aéreos, pois invariavelmente pagará
por ela, mesmo ao tomar um simples café no bar da esquina.
Enquanto pairarem dúvidas sobre nossa competência enquanto
nação, enquanto questões técnicas não
forem separadas de questões políticas, enquanto formos
tomados de assalto pela crise da vez, viveremos pacificamente as
angústias de sermos Brasileiros. Aviões não
podem esperar por previsões quando estão no ar, vidas
não podem ser administradas como peças em linha de
montagem, e o descaso público não pode nos tirar a
fé em nós, e em todos os que merecem Credibilidade!
Marcelo Prates |